A Raízen, uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do país e concorrente de grupos como Inpasa e FS no mercado de biocombustíveis, protocolou pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para renegociar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. As informações são da Folha de S.Paulo.
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A empresa é controlada pelo grupo Cosan em sociedade com a Shell. O mesmo conglomerado também controla a Rumo Logística, concessionária responsável pela construção da primeira ferrovia estadual de Mato Grosso, projeto considerado estratégico para o escoamento da produção agrícola e de biocombustíveis do estado.
O plano de recuperação envolve a holding Raízen S.A. e oito subsidiárias e foi estruturado com apoio de credores que representam mais de 47% das dívidas sem garantia real. Segundo comunicado divulgado pela companhia, a proposta prevê a renegociação das obrigações financeiras, enquanto pagamentos a fornecedores, clientes e parceiros comerciais continuarão sendo realizados normalmente.
Entre os maiores credores da empresa estão instituições financeiras e agentes que representam investidores internacionais. O principal é o Bank of New York Mellon, com cerca de R$ 18,7 bilhões em créditos. Na sequência aparecem detentores de bônus internacionais (bondholders), a True Securitizadora, a Pentágono DTVM e o banco BNP Paribas.
Juntos, esses cinco grupos concentram aproximadamente R$ 42 bilhões dos cerca de R$ 65 bilhões em dívidas financeiras da companhia.
A Raízen encerrou dezembro com cerca de R$ 17,3 bilhões em caixa, valor inferior ao volume de obrigações acumuladas. O plano também prevê a suspensão temporária do pagamento do serviço da dívida e restrições à distribuição de dividendos até a homologação judicial da reestruturação.
Avanço do etanol de milho
O aumento do endividamento da companhia está associado, segundo executivos do setor sucroenergético, aos investimentos realizados nos últimos anos na produção de etanol de segunda geração (E2G), combustível obtido a partir de resíduos da cana-de-açúcar, como bagaço e palha.
A tecnologia permite ampliar a produção sem aumentar a área plantada, mas envolve processos industriais mais complexos e custos mais elevados. Apenas uma das plantas inauguradas pela companhia, em Guariba (SP), recebeu investimento estimado em R$ 1,2 bilhão.
Enquanto a Raízen ampliava os aportes nessa tecnologia, o mercado passou a registrar crescimento acelerado do etanol de milho. Esse movimento fortaleceu grupos como Inpasa e FS, que têm presença expressiva em Mato Grosso e lideram a expansão desse modelo de produção no país.
O estado se consolidou nos últimos anos como um dos principais polos de etanol de milho do Brasil, ampliando a concorrência com produtores tradicionais de etanol de cana.
Estrutura e operações
A Raízen atua em toda a cadeia produtiva da cana-de-açúcar, com produção de açúcar, etanol e bioenergia, além da distribuição de combustíveis. A empresa opera mais de 8 mil postos licenciados sob a marca Shell e possui cerca de 45 mil colaboradores.
No ano-safra 2024/2025, a companhia registrou receita líquida de R$ 255,3 bilhões e Ebitda ajustado de R$ 10,8 bilhões. No período, comercializou 34,2 bilhões de litros de combustíveis e produziu 5,1 milhões de toneladas de açúcar.
Apesar da escala das operações, a alavancagem da empresa chegou a 5,3 vezes a relação entre dívida líquida e Ebitda no fim de 2025, nível considerado elevado pelo mercado.
Para reforçar o caixa e viabilizar a reestruturação, os controladores anunciaram aportes que somam cerca de R$ 4 bilhões, sendo R$ 3,5 bilhões da Shell e R$ 500 milhões do empresário Rubens Ometto, principal acionista da Cosan.