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Terça-feira, 22 de outubro de 2019

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Recuperação de solos queimados pode levar décadas, aponta especialista

Da Redação - José Lucas Salvani

22 Set 2019 - 15:10

Foto: Rogério Florentino/Olhar Direto

Recuperação de solos queimados pode levar décadas, aponta especialista
A recuperação do solo em áreas naturais como a amazônia pode levar décadas por conta das queimadas, aponta Emílio Carlos de Azevedo, doutor em Ciência dos Solos da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). O especialista ainda aponta que o fogo pode destruir não somente a composição física, como também química e biológica. Em Mato Grosso, 60% dos focos de calor registrados em 2019, entre janeiro e agosto, estão em áreas privadas, aponta o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

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“Demora algum tempo, dependendo da gravidade que o fogo entrou. Se fosse uma floresta e você dizimasse ela totalmente, imagina que tirou tudo, isso demora algumas décadas. Agora, se o fogo chegou e queimou só a parte da superfície, em alguns anos já recompôs isso. Mas é sempre prejudicial [o fogo]”, pontua.

Emílio acrescenta que não é possível definir um tempo específico porque a reestruturação varia de acordo com cada região, e a vegetação ali existente também tem influência neste processo. Todavia, em solos da região agrícola o tempo máximo pode ser de até 10 anos, além de trazer prejuízo financeiro aos produtos, visto que este solo é preparado de forma diferenciada para atender as demandas do mercado.

“Na área agrícola, você já pegou esse solo formado e você mudou o seu equilíbrio. Existia um equilíbrio e agora é outro. Logicamente que os materiais que são colocados nas lavouras se decompõem muito mais rápido do que o material de mata”, esclarece.

A destruição do fogo pode se dar em três níveis: biológico, físico e químico. Quanto ao aspecto biológico, a devastação pode se dar pela extinção de microrganismos que vivem nos solos. Já a nível físico a destruição atinge a interação entre os materiais orgânicos que foram mineralizados, podendo causar até a retenção e escorrimento de água, aumentando o processo erosivo. Por fim, quimicamente, podem se perder elementos como potássio, fósforo e nitrogênio.

Cada região e vegetação reagem de formas diversas quanto ao fogo. Aqui em Mato Grosso há o cerrado, amazônia e o solo agrícola. “Cada [solo] tem um tipo de material orgânico e a carga [de material] para ser queima é diferenciada”, explica o doutor ao Olhar Direto.
 
Emílio Azevedo

Os dez primeiros centímetros do solos é composto pela parte mais rica do solo. É nessa profundidade onde existe uma alta interação entre os materiais orgânicos que caem e se decompõem, entrando em contato com a radiação solar, temperatura, chuva e umidade. Ao queimar tais solos, com temperaturas que atingem entre 450 ºC e 620 ºC, esses materiais são extintos, impedindo com que se interaja com o solo e traga benefício para o sistema.

“As altas temperaturas, em geral, chegam entre 450ºC até 620ºC. A temperatura atinge, geralmente, os primeiros dez centímetros. Independente do material que tem, pode variar mais ou menos. (...). O solo tem vida e precisa ter material orgânico. É primordial esse material orgânico para formar uma capa de solo”, esclarece.

Queimadas em Mato Grosso

A doutora em ecologia, Christine Strussmann, também da UFMT, aponta que os incêndios no cerrado, em sua maioria, são causados pelo homem, seja de forma acidental ou proposital. Ela esclarece que os incêndios naturais acontecem no início da seca e em seu fim, devido aos raios de chuva em ambos os períodos que atingem árvores. O fogo, inclusive, tem pouca precipitação, sendo localizado em pequenas regiões e tem um dano pequeno em termos de morte de indivíduos. “Ele tende a ser muito menos danoso porque a vegetação [seca] não está em seu auge”, explica.

Nos últimos dois meses, o estado de Mato Grosso tem sido marcado por inúmeros focos de queimadas e incêndios. Cidades como Sapezal, Cáceres, Campo Novo do Parecis e Chapada dos Guimarães tiveram incêndios de grandes proporções. 

Em Chapada do Guimarães foi constatada uma das principais perdas relacionadas aos incêndios. A devastação do fogo atingiu 5 mil hectares, o equivalente a 7 mil campos de futebol. Consequentemente, todos os atrativos do Parque Nacional tiveram que ser fechados por questões de segurança, de acordo com o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

Devido a quantidade de incêndios na região, a Prefeitura de Chapada decretou situação de emergência no dia 12 de setembro. O prejuízo com as despesas não previstas chega a mais de R$ 23 milhões e é estimado que 10 mil pessoas tenham sido afetadas.

Ainda no dia 10 de setembro, o governador Mauro Mendes (DEM) decretou situação de emergência para todo o estado de Mato Grosso. Não somente pelas queimadas, mas o decreto se deu também pela situação climática no estado que facilita com que o fogo se propague.

O decreto anunciado tem duração de 60 dias e pode ser prorrogado caso seja julgado necessário. Desta forma, o governo anunciou que irá adotar diversas medidas para que os incêndios sejam combatidos, além da aquisição de bens e materiais mediante dispensa de licitação, conforme preceitua o artigo 24, IV, da Lei Federal nº 8.666, de 21 de junho de 1993, respeitados os requisitos constantes do artigo 26 da mesma lei, entre outros.

30 incêndios por dia  

Segundo o último levantamento da Defesa Civil de Cuiabá, foram registrados em média 30 ocorrências de incêndios no município, totalizando 460, entre os dias 1º a 14 de agosto. Neste período, o bairro com o maior número de registros é o Parque Cuiabá, com 35, seguido por Jardim Vitória e Despraiado, ambos com 30.

Já entre janeiro e julho, o número atingiu 1065 ocorrências. O bairro que lidera o ranking, todavia, é o Jardim Vitória. O Parque Cuiabá e o Despraiado também lideram, com 56 e 45 casos, respectivamente.

1 comentário

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  • alexandre
    23 Set 2019 às 08:39

    Em 2 anos, o cerrado se recupera, foi assim no ultimo grande incêndio em 2015....

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